O ministro do STF, Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém viu as irregularidades do Banco Master. Para ele, o “elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo”. Especialistas ouvidos apontam que Vorcaro e seus companheiros usaram a favor do Master os sistemas regulatório, político e jurídico que incentivam a omissão, abrindo espaço para a fraude bancária mais custosa da história do país, com prejuízos estimados em R$ 60 bilhões.
O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, afirma que a dinâmica da omissão contaminou as estruturas de regulação e fiscalização. Ele apresenta duas leituras para o caso: a primeira é a do escândalo, com falhas individuais. A segunda, mais técnica, aponta que os sistemas não oferecem incentivos à reação, fazendo com que cada agente perceba que tem mais a perder vendo do que não vendo.
O caso Master produziu exemplos dessa dinâmica. Em 2024, três gestores da Caixa Asset foram afastados após redigirem um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do banco. Em 2025, o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciou após votar contra empresas ligadas ao Master. O interino Otto Lobo reverteu o voto e foi indicado por Lula para a presidência da autarquia.
O economista Marcos Lisboa aponta o risco de sanções para quem tenta agir preventivamente. Ele cita que servidores podem ser acionados na Justiça ou sofrer questionamentos do TCU. O próprio TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”.
Nos Estados Unidos, o ambiente é oposto. A False Claims Act garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act criou o programa de whistleblowers na SEC, onde o denunciante recebe de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão.
Lisboa também critica o tratamento difuso da responsabilidade solidária no mercado financeiro. Segundo ele, as corretoras são responsáveis pelos produtos que oferecem e deveriam alertar os investidores. Os balanços do Master já mostravam riscos, como a concentração em ativos de baixa liquidez.
O economista Roberto Teixeira da Costa afirma que a fragilidade do Master era identificável de forma intuitiva. Para ele, um CDB que paga muito acima do mercado já é um alerta. Ele defende a recalibragem do FGC, que cobre até R$ 250 mil por CPF, para reembolsar 75% do valor investido, obrigando as pessoas a avaliarem os riscos.
O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, destaca a presença de altas autoridades na rede de influência de Vorcaro como um diferencial da fraude. Para ele, essa rede, que reúne representantes nos três Poderes, serve para intimidar e desincentivar investigações.
